Cássio Arreguy

10/08/2006 17:58
TEIMOSO

João era um cara muito teimoso. Desde menino insistia nas traquinagens mais perigosas. Desafiava as leis da natureza e punha sempre à prova a capacidade protetora do seu anjo da guarda. Por conta disso as autoridades celestiais multiplicaram o número dos guardiães da saúde do garoto. A cada pito do pai ou da mãe, ele respondia com um sorriso infantil e ingênuo, que dobravam a rigidez materna e a enérgica moral paterna. Cresceu, desenvolveu, aprimorou a inteligência e a sagacidade que o caracterizavam. Na escola não era dos mais aplicados. Teimava em matar aulas para alimentar o sonho de ser um craque do futebol. Insistia em completar o time, mesmo não sendo, de verdade, o que chamamos de bom jogador. No máximo esforçado, diria aquele tradicional metido a bam bam bam do pedaço. Com as mulheres tinha seus encantos. Não era de fugir da raia e nem de esconder o rosto. O mulherio infanto-juvenil bem que gostava do seu jeito tímido e meio misterioso. Mas também ali sua teimosia dava o ar da graça. Fazia jogo duro, charme e acabava perdendo a chance de pegar aquela jovem que os seus amigos mais almejavam. Pior que ela dava bola pra ele. Teve seus bons momentos na pós-adolescência. Ficar, um termo que surgia nesta época, já era parte do seu repertório. Era seletivo, não gastava lábia e nem lábios com qualquer uma. No entanto deixou os estudos um pouco de lado. Curtiu muito, arrumou trabalho, entrou pra faculdade. Teimoso como ele só, escolheu um curso que não estava nos planos da mãe e do pai. Após a formatura tornou-se um dos mais respeitáveis profissionais da sua área. Mas lá veio a velha e inseparável teimosia. Cismou com a mulher mais bonita da cidade, que era pequena e alastrava rapidamente as notícias. Dos sorrisos da bela interpretou que lhe davam bola. Da simpática e atraente mulher, já logo imaginou sua companheira. Jogou suas cantadas mais caras, aquelas que se guarda para as mais difíceis conquistas. Quem disse que funcionou? Quebrou a cara, insistiu e depois deu um tempo. Anos depois reencontrou a gata. Caminhos diferentes os distanciaram e novamente os aproximava. Já não era mais o mesmo. Tinha família, trabalhava incessantemente, não se parecia nem um pouco com o velho João que exigia hora extra dos protetores divinos. Num belo dia, já separado da mulher e pagando pensão pelos filhos gerados, ele acordou com uma idéia fixa. E disse pros mais chegados. -Tive uma grande idéia. Lembra daquela gata que era doida por mim? Passei por ela hoje e ela me deu bola. Pronto, o João Teimoso teve uma recaída.
enviada por Cassio






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