Cássio Arreguy

21/06/2007 15:00

O SABOR DAS PALAVRAS

Da Série Minhas Crônicas

Vem de longe o gosto do homem pelos prazeres da comida. Desde a antiguidade o ato de comer merece registro nos alfarrábios. Com o passar do tempo e o desenvolvimento da gastronomia, vários termos e palavras foram surgindo, alimentando o vocabulário universal. Comer, e mais ainda, degustar, passaram a integrar o seleto grupo dos grandes prazeres da vida. Não vai aqui, de forma alguma, qualquer desrespeito à imensa parcela da população mundial, para quem comer é palavra quase extinta do vocabulário.
Para vocês terem uma idéia, sabem quantas palavras da língua portuguesa estão relacionadas à gastronomia e comida? Quantas expressões e ditos populares? Dá gosto ler textos que se referem ao bem comer, de autores que usam as palavras com o mesmo prazer e volúpia com que se deliciam à mesa. Através da literatura vemos o quanto nossa vida é uma extensão da cozinha. Eu mesmo, caçula que sou, sempre fui carinhosamente chamado de “raspa-do-tacho”.
Na minha casa tem ainda minha irmã, apelidada de “manteiga derretida”, só porque tem o hábito de chorar à toa. Já meu irmão, de tão teimoso, é “carne-de-pescoço”. Quem nunca levou um “bolo” da namorada ou namorado? Quantos relacionamentos “azedaram” vida afora? E há coisas tão fáceis, que achamos “mamão com açúcar”.
Nos tempos de meu pai, as meninas bonitas eram chamadas de “docinhos de côco”, uns “filés”, de acordo com um guloso vizinho. Sem falar nos “abacaxis” que descascamos quase diariamente. O tempo inteiro estamos falando de comida, no sentido figurado ou no literal mesmo.
Todos nós, que tivemos um dia que “engolir” o Zagallo, vimos grandes goleiros paparem “frangos” indigestos. No futebol sempre foi assim. Na última Copa do Mundo, enquanto o Brasil praticava um futebol “sem sal”, levando a competição em “banho-maria”, a seleção italiana foi “comendo pelas beiradas”, chegando à final contra a pátria da alta gastronomia, a França. No embate entre a alta cuisine e a velha tradição italiana, os gauleses foram devorados pelos adeptos da massa, e serviram o champanhe aos da terra da bota. E nós temos até hoje a turma de Zidane atravessada em nossa garganta.
Falar de comida atrai tanto a atenção que nos anos negros da ditadura militar, o jornal O Estado de S.Paulo, impedido pelo governo de publicar editoriais e outros artigos, recorreu a receitas culinárias para ocupar o espaço. A música popular brasileira também é um prato cheio: caju, mamão, maçã, banana, limão, açaí, fruta-do-conde (!), uva, um pomar inteiro já figurou em inúmeras canções. Isto para ficar apenas nas frutas, pois de carnes a massas, almoços e jantares, restaurantes e bares, tudo já passou pela MPB. Na literatura nem se fala. Todos os grandes escritores e autores brasileiros já escreveram sobre comida ou têm, no ato de comer, uma tarefa quase ritualística.
Taí, comer é um ritual. Não digo simplesmente ingerir alimentos para matar a fome. Digo comer com prazer, com calma, com emoção. Em torno da mesa é que se tomam as decisões mais importantes da vida. Não é por acaso a figuração da Santa Ceia como um dos principais momentos da celebração católica. Além de um grande prazer, comer recheia nossa língua, temperando-a com o sabor das palavras, o aroma das letras e nos dando a grande satisfação de ter o estômago, e a mente, “forrados”.

enviada por Cassio






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